sábado, 22 de março de 2008

Rumo à Dignidade


Quando aconteceu o 25 de Abril eu estava entre os 6 e os 7 anos. Foi uma altura de emoção e fascínio e até os exageros e perseguições do prec eram vividos com o espirito de aventura próprio da idade. Lá em casa, era o evoluir das discussões políticas que passaram do sonho da social democracia nórdica para uma urgente democracia, qualquer uma que evitasse uma passagem directa da ditadura bafienta para o comunismo assassino e opressor. Havia livros que circulavam entre todos, menos os mais novos, sem idade nem compreensão para a dimensão do "caso". Lembro-me perfeitamente das capas, títulos e autores: o célebre e espesso Gulag de Soljenitsin, a Entrevista com a História de Oriana Fallaci, os 4Ismos de Ebenstein, o incontornável Portugal e o Futuro de António Spinola e o Rumo à Dignidade de Galvão de Melo. Este último era um livro de pequena dimensão, capa verde escura e grafismo sóbrio a dourado escuro. Vi-o hoje quando soube, atrasado, da morte de Galvão de Melo. Despertou-se-me a memória viva da RTP a preto e branco e de Galvão de Melo na Assembleia, combativo, polémico destemido; bons tempos.
Galvão de Melo era, à altura, um porto de esperança, fiel aos seus principios, nunca se deixou vender aos sedutores ventos vermelhos de Moscovo que tanta gente corromperam. Lembro-me de ouvir discordâncias quanto a algumas das suas ideias, mas mais marcante foi o respeito que a sua rectidão de caracter sempre inspirou. O seu pequeno livro, que li mais tarde, como todos os outros que citei, é testemunho disso mesmo e espelho de uma forma de vida conscientemente escolhida. A sua vida pública é reflexo desse espirito idependente e provocador; não há muitos homens assim.

Portugal, os portugueses e a democracía devem-lhe uma justa homenagem.

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